Arquitetura limpa num hackathon de 2 dias
Como um MVP de dashboard com bento grid personalizável me tirou do lugar, me fez apresentar para mais de 300 pessoas e me ensinou que troféu é só uma taça vazia.
Rubens Rosa
Engenheiro de Software Backend
Tem um fenômeno universal no desenvolvimento: quando o projeto está se encaminhando para o fim e o P.O. não te enche de tarefas, você acaba inventando coisas para fazer. Revisa código, documenta fluxos, abre aqueles e-mails do suporte que você deixou para trás. Foi nesse clima que surgiu uma das experiências mais legais que já tive no trabalho.
A IA chegou na empresa
Estava começando a ganhar corpo a discussão de IA dentro da empresa. A Lovable patrocinou contas premium sem limites para que alguns devs mais antigos testassem. No início, era para ser um acesso restrito, exclusivo. Mas, de uma forma que eu ainda não entendi muito bem, alguém teve a ideia de transformar isso em um hackathon. Cada squad escolheria um representante para construir um MVP com IA em uma semana e apresentar para a área de TI.
Eu já conhecia um projeto que estava engavetado há um tempo. Era um painel que centralizava as informações básicas do colaborador: ponto em um sistema, férias em outro, documentos em outro lugar ainda. Tudo espalhado, nada integrado. A ideia era boa, mas nunca saía do papel. Até aquele momento.
Não sou a pessoa mais proativa do mundo, mas vi oportunidade ali. Falei com a minha chefe, ela achou legal e me incentivou a tocar. O plano inicial era simples: fazer só o front.
Tive uma ideia para deixar isso aqui muito massa
Todo dev conhece aquele momento. Você está cansado, debruçado sobre um problema, e de repente a cabeça resolve sair de si e sonhar alto. “E se fosse um bento grid personalizável?” Sim. Cada sistema vira um widget na tela inicial. O colaborador poderia remover, adicionar, redimensionar e reorganizar os cards do jeito que quisesse. Uma dashboard que realmente pertencesse a quem usasse.
O problema é que essa ideia brilhante quase me custou o prazo. Passei mais tempo fazendo a bomba do bento grid funcionar do que construindo o resto do sistema. Drag-and-drop, responsividade, estado de layout, persistência: cada detalhe parecia pequeno sozinho, mas juntos formaram um quebra-cabeça enorme. No fim, funcionou. Não estava perfeito, mas estava bom o suficiente para ir lá na frente.
"Todo dev conhece aquele momento em que a ideia brilhante quase custa o prazo."
O medo de apresentar
Eu tenho medo absurdo de falar em público. Agora imagine apresentar um projeto para mais de trezentas pessoas do TI, gente com vinte anos de experiência, gerência, e ainda o filho do dono da empresa na plateia. Nem preciso dizer que eu tremi. Tremi bastante.
Ensaiei uma, duas, dez vezes. Quando chegou a hora, eu falei tão rápido que acabei antes do tempo. Peguei minha salva de palmas, sentei, e fiquei descrente de que aquilo daria algum resultado. Na minha cabeça, o top 10 já era impossível.
Segundo lugar
Na votação, para minha surpresa, eu fiquei em segundo lugar. Perdi por apenas um voto para um cara que estava na empresa há mais de dez anos. E olha que eu não considero que perdi: não estava valendo nada além do troféu e dos parabéns de chefes e gerentes. A ideia dele era realmente muito boa, e eu também votei nela. Podíamos escolher até três projetos ao mesmo tempo.
Minha squad ficou feliz. Tentaram disputar o troféu por um tempo, mas hoje ele descansa sob a minha mesa. E toda vez que eu olho para ele, lembro da emoção de ir lá na frente, de superar o nervosismo e de entregar algo que eu realmente acreditava.
Só uma taça vazia
Como diz o Doc Hudson em Carros: é só uma taça vazia. O troféu em si não muda nada. O que fica é o que eu vivi: me desafiei com uma ferramenta nova, fiz algo que me dá medo, e ainda entreguei algo que as pessoas acharam valioso.
Hackathons não são sobre o prêmio. São sobre o limite que você descobre consegue ultrapassar. São sobre a ideia que parece impossível na segunda e está funcionando na sexta. Sobre o pitch ruim que ainda assim convenceu. Sobre a sensação de que, sim, você é capaz de ir além do que imaginava.
O que resta
O projeto continua no papel. Só resta tirar ele de lá. Quem sabe quando o meu legadinho parar de dar problema? Brincadeiras à parte, a ideia é boa e merece existir. E se eu conseguir montar um MVP em uma semana com pressão de apresentação, imagino o que dá para fazer com calma e foco.
Se você também tem ideias engavetadas ou medo de apresentar em público, saiba que os dois são normais. E os dois podem ser vencidos. Quer trocar ideia? Me chama no WhatsApp.